quinta-feira, 15 de setembro de 2016

XII – Estátua de gelo

Na manhã seguinte, no acampamento dos perversos:
– Vamos, seus preguiçosos! – Ordenou Sifer, cutucando com o pé os discípulos deitados.                 
Miso, antes de prosseguir viagem, verificou as bolsas de água:        
– Mestre, nossa água está terminando. – Advertiu Miso.
– Não há problema! Seguiremos pelo leito do rio, vamos! – Sifer respondeu.
Seguiram viagem através da mata em direção ao rio. Miso, descontente pela escolha do caminho, tentava argumentar durante a caminhada:
– Temos que nos apressar! E se eles chegarem antes ao monte?
Sifer atento à sugestão parou de caminhar, jogando-se à frente de Miso e encarando-o nos olhos, disse:
– Mesmo que cheguem antes no monte, seus poderes serão praticamente nulos, porque eles não têm o pentagrama, eu tenho o pentagrama.     
 Chegado ao leito do rio, Miso ordenou aos discípulos:
– Encham as vasilhas! – Sifer aproveitou o momento e se afastou do rio à procura de raízes de árvores que nasciam somente nas proximidades daquele rio. Miso o seguiu, a fim de ajudá-lo, se necessário. Enquanto os três discípulos ajoelhados à beira do rio mergulhavam as vasilhas dentro d’água, o movimento das águas mudava de direção. Os discípulos emergiam as vasilhas e as colocavam novamente submersas, na tentativa de enchê-las, mas a água não entrava nas vasilhas. Foi então que um dos discípulos disse:
– Vamos entrar?
Os discípulos entraram no rio, ficando a alguns centímetros da margem. Novamente se abaixaram mergulhando as vasilhas dentro d’água, que continuavam a mudar de direção. As águas tornaram-se redemoinho entre os pés dos discípulos, que foram sugados para o meio do rio. Desesperados, os discípulos se debatiam, na tentativa de saírem do redemoinho enquanto gritavam por socorro:        
– Mestre! Mestre! Ajude-nos!
Os gritos chamaram a atenção de Miso, que prontamente correu em direção ao rio, deixando Sifer para trás. Enquanto Sifer com curtos passos e despreocupado retornava do bosque, trazendo consigo algumas raízes de árvores. Ate que avistou de longe Miso a beira do rio levantar a mão em direção aos discípulos que se afogavam, puxando-os do redemoinho até a margem. Sifer, indignado com os fatos, largou as raízes ao chão e apressou o passo, estampando uma fisionomia ainda não conhecida pelos demais. Aproximando-se do rio, gritou:
– Nifeia, sua... Apareça, vamos! Apareça! É uma ordem!
Nifeia não deu as caras. Continuou dentro de sua gruta de madrepérolas, sentada em uma pedra, cantarolando, fingindo nem ouvir os intensos gritos de Sifer. Mas toda essa gritaria chamou a atenção de Migdy, uma sereiazinha curiosa, que colocou a cabeça fora d’água para ver o que se passava. Sifer, vendo a sereiazinha, deu um sorriso irônico, e disse:
–Você não vem, Nifeia? Essa serve! Vitale est potestas mea.  – Estendendo a mão com os dedos entreabertos em direção a sereiazinha, e  fechando a mão vagarosamente trazendo-a em direção ao peito. Sugando aos poucos a vitalidade de Migdy, que sentindo tudo ressecar olhou para as mãos que enrugavam  e, instintivamente, olhou-se no reflexo da água, vendo seu rosto envelhecer, apavorada leva o às mãos no rosto, dando um grito desesperado:
– Nãooooo!
Nifeia espiou entre as fendas da parede da gruta, vendo  Sifer com os braços entreabertos se deleitar com o fluído da sereiazinha.
– Ah, eu precisava disso! É revigorante! – Disse Sifer aliviado.
– Nifeia enfurecida saiu da gruta, cantou com um som de mil sereias, provocando que inúmeros pássaros do bosque voassem assustados. E mergulhou no rio, levantando sua enorme calda azul, e lançou um jato d’água capaz de transmutar o Elemental. Antes que o jato d água chegasse a Sifer, ele, estendeu a mão e o congelou em pleno ar. Nifeia, foi congelando gradativamente, até o gelo se expandir pelas águas do lago, e atingir todas as ondinas, as quais tentavam fugir, mas eram alcançadas pelo gelo. Migdy, Nifeia e as outras sereiazinhas se transformaram em estátuas de gelo dentro do rio completamente congelado. Miso observou o feito de Sifer com reprovação:
– Mestre, por quê? O caminho será longo. Precisamos de água!
Sifer, com uma postura bastante arrogante, ignorando Miso, sussurrou: – Não preciso seres inferiores!
Miso, pela primeira vez, enxergou a face de Sifer. Baixou a cabeça, desolado juntou-se aos demais discípulos. Durante horas, permaneceu calado a meditar, lembrando-se das histórias contadas sobre os feitos do perverso e impiedoso Sifer, que destruía tudo e todos que o desagradassem. Debaixo daquela capa se escondia, mais que um corpo mirrado.

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